quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

História da Língua Brasileira - Cafe Historia

História da Língua Brasileira - Cafe Historia

Monólogo de um brasileiro.

DE MIM PARA TI.

Monólogo de desespero de um brasileiro com a sua língua.

Ah! minha amiga,
o que fizeram de ti?
o que fizeram de mim?
eras tão pura, tão linda, eu me completava em ti.
Eu aprendia tanto com "tigo" e tanto aprendias com "igo",
parecia um amor sem fim, eterno.
Juntos formávamos um belo par, vivíamos um sonho.
Éramos como carne e unha, inseparáveis, carentes um do outro.
O que houve com "mim e ti"?
Por que nos permitimos separar?

Agora o que falo já não aceitas
e o que dizes eu é que não suporto mais.
Estou desesperado, sou louco por ti.
De onde surgiram tantos fantasmas?
Será que a culpa tanto foi minha quanto foi tua?
Talvez tenhamos sido fracos demais, medrosos, sei lá!

Começo a não crer mais em nada.
O nosso presente é uma tortura sem fim.
Vivo eu sem ti, e vives tu sem mim.
O que restou de tanto amor e tanto carinho?
Apenas ódio? Apenas desprezo?
Será que ódio é o que sinto por ti? E desprezo é o que sinto que sentes por mim?
O que fizeram com mim e com ti? Nos transformaram em igo?
Agora vivo contigo e tu convives comigo.
Dois estranhos em um corpo só, e de poucos amigos.
Quantos "igos" ainda hão de vir?

Sinto tanta saudade de ti.
Eras tão boa em conselhos. Volta prá mim.
Me ensina a te defender como agora defendi.
Deixa eu falar por ti e não tu por mim.
Como posso ser "eu" sujeito se me queres por objeto?
E como posso ser objeto teu, se quem possui a ti sou eu?

E logo tu que nem pátria tens?
e se tens, não és reconhecida pelos teus.
Pois tua gente, que deverias conduzir,
Também o mesmo efeito sente,
sem pátria, sem língua,
dinossauros pretéritos de uma história presente.

Por que te deixastes vender o corpo
Como fazem as prostitutas?
Tanto tinhas a ganhar com o amor meu.
Por tão pouco dinheiro me traístes.
Mas sei que és vítima tanto quanto eu.

Será que a ti tomaram por escrava? Rainha que és.
Me preocupo, e a ti pesso,
deixa eu nos defender.
E se escravos vamos ser, seremos sim,
escravos desse amor teu por esse amor meu.

Já não temos a mesma cara.
Tantas mãos nos deformaram.
trocaram até nosso samba por um fado! não deu certo,
pois o fado firou fardo. Incrível não é?
coisa que é prá se ouvir, por aqui é carregado.
Peso morto, algo meio torto;
trocar morrido por matado e matado por morto?
isso é um estupro.
Quem foi pegado foi, isto é particípio passado,
"pego" é presente.
Devemos prender o demente que pratica tão medonho ato.

Ainda tenho esperança. Quem sabe?
sem esses monstros malditos,
sem essas cabeças-pinico,
agente possa se amar de novo.
Se amar de maneira pura e esperta,
se amar sem posição errada nem certa,
simplesmente se amar.
O amor nos ensinará a maneira correta.

E se hoje sou eu quem te cava a cova,
é porque existe em mim um sonho,
não de te ver morrida nem morta,
e sim os teus monstros medonhos.
Olha prá mim!
não percebes o estrago feito?
não entendes que assim não há verbo sem defeito?
tua explicação me deixa sem jeito,
se "ME" não conjuga verbo, como pode ele ser sujeito?
Deixa "EU" pensar?????

Agora compreendi o porquê da separação:
É que entre "EU" e "você", existem muitos "min's", muitos "igo's",
muitos "migos", "tigos" e "sigos" - carrascos de uma mão só.

Por quem luto?
por uma amada que me seja amiga,
não por esse carrasco de uma mão só
que me decepa da cabeça a vida.

Vou ficando por aqui.
Minha garganta está seca
e minha voz ficando rouca,
termino essa carta botando
muito sangue pela boca.

Autor – Ricardo A. B. Tiné.